Desensaio

O trauma contra a ultraviolência

, , ,

É possível recuperar um marginal? Depende. À margem de qual regra ele se encontra?

captura de tela 2026 02 26 183820

Maria Beatriz de Castro
Jornalista, 32 anos.
Belo Horizonte (MG)

min read

MV5BMjE0NTk2NDkzNl5BMl5BanBnXkFtZTcwMzE4NzMyNQ@@. V1

Travo uma batalha quase espiritual com Anna Kariênina há quase cinco anos. Empacada na página 400, me recuso a ser derrotada pelos trechos tediosos que atravessam a belíssima história de Tolstói, autor que compõe a nata da literatura russa. Embora a jornada seja longa, eu quero terminar o livro. Na verdade, preciso. A primeira linha do texto me impactou de tal forma, me intrigou e deslumbrou de tal maneira, que eu preciso, independentemente dos percalços ao longo da leitura, eu preciso — e veja bem, muitas vezes não desejo, mas preciso — ir até o fim.

O impacto do meu primeiro encontro com Stanley Kubrick foi o mesmo. A primeira cena de Laranja Mecânica (1971) é estonteante. Melhor: hipnótica. Após o primeiro frame, não há como voltar: você precisa saber aonde essa história vai dar.

O prelúdio da perturbação: sem piscar, o protagonista te encara enquanto um zoom out revela um cenário brilhante: homens de branco bebem leite batizado no subsolo de um pub em algum canto em Londres.

A estrutura do local, das mesas ao dispenser de bebida no Korova Milk Bar, é formada por manequins de mulheres nuas em posições indecentes. A palidez e a imobilidade da cena te deixam em posição de guarda. Cuidado! Você não está a salvo.

Para coroar essa atmosfera, Kubrick escolhe como trilha uma marcha fúnebre do século XVII, Music for the Funeral of Queen Mary, de Henry Purcell, que se eternizou na versão de rock psicodélico (ou progressivo) apresentada pelo filme.

Nos primeiros segundos, conhecemos Alex e seus droogs para acompanhar uma noite típica de seu estilo de vida, desfrutando da luxúria da ultraviolência.  

There was me, that is, Alex, and my three Droogs, that is, Pete, Georgie, and Dim.

É verdade que elegi Laranja Mecânica para este primeiro desensaio principalmente por perceber que a maioria das pessoas nunca viu o filme, apesar de usarem suas referências a torto e a direito. De fato, o filme é polêmico e foi proibido em muitos países em seu lançamento, inclusive no próprio Reino Unido e aqui no Brasil, durante a ditadura militar.

Por essa influência política e popular, não vou tentar explicar o filme. Não serei eu uma ingrata após assistir uma obra tão generosa, que respeita a inteligência de seu público.

Isto não é uma crítica. É um desensaio.

A generosidade de Kubrick é mérito dividido com o autor da obra original na qual o filme é baseado, Anthony Burgess. O diretor foi fiel ao livro, lançado em 1962, até onde pôde – isto é, até os minutos finais. É excelente o trabalho de ambos na apresentação detalhada da figura de Alex DeLarge, o sanguinário líder da gangue de delinquentes juvenis que se refestela ao espancar mendigos, invadir casas e estuprar mulheres.

Alex é desprezível, e o sentimento de ódio pela personagem é construído com consistência até o momento de sua prisão. (Opa, eu não vou contar o filme, mas também não me venha reclamar de spoilers de uma obra lançada há 55 anos.)

Um importante ponto de inflexão do roteiro é a revelação de que Alex é um adolescente. A escolha do ator Malcolm McDowell, à época com 27 anos, para interpretar um jovem de 15, certamente ajuda no estranhamento. Mas Laranja Mecânica sabe trabalhar os contrastes: é um futuro distópico, mas a trilha sonora remonta ao século XVII. A arquitetura é futurista, mas o figurino da gangue é inspirado na juventude britânica da década de 60.

Burgess, aparentemente, não quis datar sua obra. Talvez porque não quisesse arrumar confusão – talvez seria o mesmo motivo pelo qual criou termos inspirados no idioma russo que são inteligíveis apenas por contexto (ou nem isso, muitas vezes). O que é que é droogs e horrorshow? A saber: não é drogas nem show de horrores.

Por essas e outras, é fantástico assistir a um filme que não pretende induzir seu pensamento. Que respeita sua percepção. É de melhorar a autoestima, realmente. A ojeriza dá lugar ao riso em momentos muito próximos; a nudez e a violência gráfica chegam a borrar um limite perigoso para o espectador. O que eu assisto me incomoda ou me diverte? Me entretém, de fato.

Captura De Tela 2026 02 11 144318 1

Linguagem técnica não tenho para falar de cinema. Me resigno a dizer que o jogo abrupto de cenas, pulando de um indefeso Alex no leito da enfermaria para um close-up de suas pálpebras presas por ganchos, num corte seco, é elegante e aterrador na medida certa. É representação gráfica de tortura — inclusive, McDowell afirmou que a sensação foi real —, mas guarda seu verniz.

Uma curiosidade: o equipamento usado no ator é o blefarostato, comum em diversos procedimentos oftalmológicos. Há três anos, usei a ferramenta durante uma cirurgia refrativa. Ao todo, foram 15 minutos de olhos abertos pelo aparelho. Embora o modelo seja muito mais delicado que o usado em set na década de 70 e o procedimento seja indolor, é angustiante.

A estetização das cenas de violência é lei na obra de Kubrick. Num momento, uma mulher completamente nua é disputada a tapas por vários homens numa dança ritmada que acontece no palco de um teatro abandonado. É como ver um quadro renascentista animado.

O que dizer, então, da coreografia de Alex durante uma das cenas de ultraviolência mais icônicas do filme? Gene Kelly, diretor e protagonista do clássico Cantando na Chuva (1952), não gostou nada de ver sua música interpretada naquele contexto. Compreensível.

Em outra cena, tentando vitimar outra mulher, Alex se vê numa briga com uma peça de arte em formato de pênis. Eu, que rio e me divirto ao passo que me assombro e desvio o olhar, fico a sós com meus pensamentos. Kubrick entrega o desconforto e segue com o filme. Não é mais problema dele. E eu que me resolva com minhas dúvidas.

Dali, segue o esperado: o tratamento Ludovico, a esperança de Alex que, transformado num cordeirinho na prisão, procura desesperadamente sair dali, e a oportunidade oferecida pelo ministro. De joelhos por sua liberdade, ele se submete a um tratamento bizarro que consiste em ser exposto às perversidades que já cometeu. Sucede-se uma série de humilhações nas mãos de médicos, do governo e de suas antigas vítimas.

A promessa é de transformação. O delinquente será totalmente recuperado e estará pronto para ser reintegrado à sociedade. Ele será um cidadão de bem.

511006640 1153745010129958 4557985963929680191 N 994x1024

Burgess e Kubrick caminharam juntos até aqui, mas a cisão inevitável é no capítulo final. A evolução moral como escolha e não imposição é o crivo do escritor. Por outro lado, Kubrick opta por um desfecho mais realista, focando na natureza da perversão.

Alex, como qualquer outro adolescente, vive em constante rebelião interna. Seu sadismo existe, mas não convive amigavelmente com a sensibilidade de um apreciador de música clássica. A tortura se concretiza quando estes dois lados são forçosamente colocados de frente um para o outro.

É possível recuperar um marginal? Depende. À margem de qual regra ele se encontra? De qual perversidade ele padece? Daquela que condena a sociedade ou daquela que a sustenta?

O trauma é o resultado de um confronto que acontece sem preparo, mas nada pode o trauma contra a perversidade recompensada. A perversão é uma criação civilizatória — e a ultraviolência, uma tentativa desesperada de o humano retornar ao seu estado original.

Ps.: Isto não é uma crítica, é um desensaio.