desensaio log 03

O labor em 1936, o labor em 2026

, ,

A brutalidade de viver em função do trabalho e dele tirar tanto a doença e a humilhação quanto a dignidade e alguma vaidade

captura de tela 2026 02 26 183820

Maria Beatriz de Castro
Jornalista, 32 anos.
Belo Horizonte (MG)

min read

Charlie

Artista predileto do meu marido, Charlie Chaplin e eu nos conhecemos em 2012. Luzes da Cidade (1931), me perdoem, me perdoem, me perdoem, não me seduziu.O Garoto (1921), embora belo, também não foi suficiente para me converter a fã. Tempos Modernos, no entanto, me fez sentir o que tanto ouvi e li sobre o ator inglês: a comédia física em sua excelência, contrastando com a maioria dos filmes em cartaz naquela época, sem deixar nenhuma saudade do cinema falado.

É que Chaplin resistiu bravamente à palavra dita no cinema, argumentando que a voz limitava a imaginação do público. Logo, em 1936, quase dez anos após o début do cinema falado, Charlie ainda fazia cinema mudo. Neste Tempos Modernos, há voz em momentos pontuais, cumprindo a função de impactar o público ora com o autoritarismo, ora com a fantasia. A fala tem um papel na narrativa, não é mera leitora de texto.

Tanto que, no momento em que a voz de Carlitos é ouvida pela primeira vez, um misto de quatro línguas — francês, italiano, inglês e línguas inventadas — sai de sua boca, preservando seu desejo principal: manter a personagem universal, sem endereço certo. Ele é apenas o vagabundo, um vagabundo, que pode estar em qualquer canto do planeta.

Chaplin encarnou Carlitos pela última vez neste filme. Junto a Ellen, interpretada por Paulette Goddard, que era parceira de Chaplin também na vida real à época, assistimos à brutalidade de viver em função do trabalho e dele tirar tanto a doença e a humilhação quanto a dignidade e alguma vaidade.

Você já entendeu que isso não é uma crítica. É um desensaio.

Como ousamos crer, na arrogância da nossa juventude na história humana, que fomos os primeiros a abordar qualquer assunto? Dar nome é uma coisa, mas observar e questionar é de sempre. É a partir de uma crise de burnout que a história se desenrola em ritmo certeiro, acompanhando a jornada do casal em busca das promessas de um trabalho digno.

Numa crise de exaustão imposta pela mecânica das fábricas, Carlitos é engolido pela engrenagem, se torna a engrenagem, é expelido pela engrenagem. E busca, a todo custo, voltar a fazer parte da engrenagem.

Não é referência: é uma representação fiel da dura realidade nas fábricas a partir da Revolução Industrial e um retrato do desespero da população frente à Grande Depressão e ao desemprego massivo. É impossível, portanto, não se assombrar com a atualidade de suas críticas. Em 2026, a primazia pelo lucro em detrimento da vida ainda é a maior chaga da humanidade.

O que o movimento sindical ainda hoje denuncia é, no cerne, as mesmas mazelas resultantes da fragmentação dos processos de produção e da precarização das condições de trabalho. O taylorismo, teoria criada por Frederick Taylor no fim do século XIX, defendia a atuação do trabalhador em apenas uma etapa da produção. O fordismo, implementado nas fábricas da Ford por volta de 1914, sistematizou este conceito com o trabalho repetitivo nas esteiras.

Karl Marx (1818 – 1883) batizou esta dinâmica de alienação do trabalho — o trabalhador apenas serve ao patrão, sem ter noção da totalidade da produção da qual faz parte, sem ter espaço para criar e lapidar seu intelecto, se submetendo ao adoecimento mental e físico para conseguir apenas sobreviver. Em linhas gerais, é viver para trabalhar, não trabalhar para viver; isso te lembra alguma coisa em 2026?

Smile, what’s the use of crying?

É na reta final do filme que ouvimos Smile, instrumental criada para a obra pelo próprio artista. Em 1954, a letra veio pelas mãos de John Turner e Geoffrey Parsons, e a voz de Nat King Cole eternizou o clássico.

Assim como na vida, em Tempos Modernos, mesmo em meio a tantas derrotas, encontra-se espaço para o riso, para algum pensamento e até mesmo para a paixão — uma afronta ao sistema que nos animaliza com tecnologias cada vez mais avançadas.

O sentido do trabalho é, até hoje, uma grande incógnita. Não pela escassez de estudos sobre o tema ou por falta de debate. Mas o que a alma quer e a impermanência natural da vida precisa vai de encontro ao capitalismo. E este vence, ainda, pela urgência de comer.

Afinal, por que eu trabalho?

Porque estar desempregado é não ter mérito. É estar à margem, acordar e não ter o que fazer, não participar das tomadas de decisões, não estar a par das novidades e não participar do progresso do setor, da cidade ou da nação. É ser um fracassado, um preguiçoso, uma pessoa sem futuro, sem pão na mesa e sem sapatos limpos.

Este sujeito desempregado precisa ser empurrado para a vida, precisa de um susto para acordar e fazer o que tem que ser feito. É preciso um trabalho, é preciso uma ocupação. Você deve estar no mundo. Entregue currículos, converse com os chegados, leia os classificados. E arranje um emprego.

Assim, você se torna um trabalhador: este, que não tem grande mérito a não ser o que pode entregar com rapidez e silêncio ao seu patrão. Este que acorda, não pensa e apenas faz o que deve fazer, longe de qualquer espaço de poder ou tomada de decisão.

Você é um fracassado, você é um preguiçoso, você está sempre atrasado, demora a cumprir as metas, almoça devagar, se distrai com facilidade. Os vinténs são apenas para o pão e os sapatos das crianças, que logo os perderão ao crescer. Este empregado precisa chegar no horário, precisa tomar um susto para ficar esperto e não ser demitido. 

Ele precisa se postar em frente ao maquinário e fazer o que deve ser feito. Ele é uma peça da engrenagem do mundo contemporâneo. Ele é uma inconveniência dos tempos modernos.

Você é um incompetente. Não sabe fazer nada. Você não teve educação, tem mais é que comer alfafa. Que trabalho porco. Que falta de esmero. O outro me cobra 10 pelo que você me cobra 20. Olha que te demito, te coloco no olho da rua. Você deveria ser mais grato. Não sabe que outro dia você só não foi daqui para fora porque eu intercedi por você? Pois deveria me agradecer. 

E doente de novo? Não estava resfriado há dois meses?  Você nunca está bom. Para o serviço, nunca está bom! Você é um relaxado. Você não tem ambição. Não vai chegar a lugar nenhum. 

Você é um estorvo, um encostado, um preguiçoso. Um fracassado.
E esteja aqui amanhã, às sete. Em ponto.