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  • O labor em 1936, o labor em 2026

    O labor em 1936, o labor em 2026

    Artista predileto do meu marido, Charlie Chaplin e eu nos conhecemos em 2012. Luzes da Cidade (1931), me perdoem, me perdoem, me perdoem, não me seduziu.O Garoto (1921), embora belo, também não foi suficiente para me converter a fã. Tempos Modernos, no entanto, me fez sentir o que tanto ouvi e li sobre o ator inglês: a comédia física em sua excelência, contrastando com a maioria dos filmes em cartaz naquela época, sem deixar nenhuma saudade do cinema falado.

    É que Chaplin resistiu bravamente à palavra dita no cinema, argumentando que a voz limitava a imaginação do público. Logo, em 1936, quase dez anos após o début do cinema falado, Charlie ainda fazia cinema mudo. Neste Tempos Modernos, há voz em momentos pontuais, cumprindo a função de impactar o público ora com o autoritarismo, ora com a fantasia. A fala tem um papel na narrativa, não é mera leitora de texto.

    Tanto que, no momento em que a voz de Carlitos é ouvida pela primeira vez, um misto de quatro línguas — francês, italiano, inglês e línguas inventadas — sai de sua boca, preservando seu desejo principal: manter a personagem universal, sem endereço certo. Ele é apenas o vagabundo, um vagabundo, que pode estar em qualquer canto do planeta.

    Chaplin encarnou Carlitos pela última vez neste filme. Junto a Ellen, interpretada por Paulette Goddard, que era parceira de Chaplin também na vida real à época, assistimos à brutalidade de viver em função do trabalho e dele tirar tanto a doença e a humilhação quanto a dignidade e alguma vaidade.

    Você já entendeu que isso não é uma crítica. É um desensaio.

    Como ousamos crer, na arrogância da nossa juventude na história humana, que fomos os primeiros a abordar qualquer assunto? Dar nome é uma coisa, mas observar e questionar é de sempre. É a partir de uma crise de burnout que a história se desenrola em ritmo certeiro, acompanhando a jornada do casal em busca das promessas de um trabalho digno.

    Numa crise de exaustão imposta pela mecânica das fábricas, Carlitos é engolido pela engrenagem, se torna a engrenagem, é expelido pela engrenagem. E busca, a todo custo, voltar a fazer parte da engrenagem.

    Não é referência: é uma representação fiel da dura realidade nas fábricas a partir da Revolução Industrial e um retrato do desespero da população frente à Grande Depressão e ao desemprego massivo. É impossível, portanto, não se assombrar com a atualidade de suas críticas. Em 2026, a primazia pelo lucro em detrimento da vida ainda é a maior chaga da humanidade.

    O que o movimento sindical ainda hoje denuncia é, no cerne, as mesmas mazelas resultantes da fragmentação dos processos de produção e da precarização das condições de trabalho. O taylorismo, teoria criada por Frederick Taylor no fim do século XIX, defendia a atuação do trabalhador em apenas uma etapa da produção. O fordismo, implementado nas fábricas da Ford por volta de 1914, sistematizou este conceito com o trabalho repetitivo nas esteiras.

    Karl Marx (1818 – 1883) batizou esta dinâmica de alienação do trabalho — o trabalhador apenas serve ao patrão, sem ter noção da totalidade da produção da qual faz parte, sem ter espaço para criar e lapidar seu intelecto, se submetendo ao adoecimento mental e físico para conseguir apenas sobreviver. Em linhas gerais, é viver para trabalhar, não trabalhar para viver; isso te lembra alguma coisa em 2026?

    Smile, what’s the use of crying?

    É na reta final do filme que ouvimos Smile, instrumental criada para a obra pelo próprio artista. Em 1954, a letra veio pelas mãos de John Turner e Geoffrey Parsons, e a voz de Nat King Cole eternizou o clássico.

    Assim como na vida, em Tempos Modernos, mesmo em meio a tantas derrotas, encontra-se espaço para o riso, para algum pensamento e até mesmo para a paixão — uma afronta ao sistema que nos animaliza com tecnologias cada vez mais avançadas.

    O sentido do trabalho é, até hoje, uma grande incógnita. Não pela escassez de estudos sobre o tema ou por falta de debate. Mas o que a alma quer e a impermanência natural da vida precisa vai de encontro ao capitalismo. E este vence, ainda, pela urgência de comer.

    Afinal, por que eu trabalho?

    Porque estar desempregado é não ter mérito. É estar à margem, acordar e não ter o que fazer, não participar das tomadas de decisões, não estar a par das novidades e não participar do progresso do setor, da cidade ou da nação. É ser um fracassado, um preguiçoso, uma pessoa sem futuro, sem pão na mesa e sem sapatos limpos.

    Este sujeito desempregado precisa ser empurrado para a vida, precisa de um susto para acordar e fazer o que tem que ser feito. É preciso um trabalho, é preciso uma ocupação. Você deve estar no mundo. Entregue currículos, converse com os chegados, leia os classificados. E arranje um emprego.

    Assim, você se torna um trabalhador: este, que não tem grande mérito a não ser o que pode entregar com rapidez e silêncio ao seu patrão. Este que acorda, não pensa e apenas faz o que deve fazer, longe de qualquer espaço de poder ou tomada de decisão.

    Você é um fracassado, você é um preguiçoso, você está sempre atrasado, demora a cumprir as metas, almoça devagar, se distrai com facilidade. Os vinténs são apenas para o pão e os sapatos das crianças, que logo os perderão ao crescer. Este empregado precisa chegar no horário, precisa tomar um susto para ficar esperto e não ser demitido. 

    Ele precisa se postar em frente ao maquinário e fazer o que deve ser feito. Ele é uma peça da engrenagem do mundo contemporâneo. Ele é uma inconveniência dos tempos modernos.

    Você é um incompetente. Não sabe fazer nada. Você não teve educação, tem mais é que comer alfafa. Que trabalho porco. Que falta de esmero. O outro me cobra 10 pelo que você me cobra 20. Olha que te demito, te coloco no olho da rua. Você deveria ser mais grato. Não sabe que outro dia você só não foi daqui para fora porque eu intercedi por você? Pois deveria me agradecer. 

    E doente de novo? Não estava resfriado há dois meses?  Você nunca está bom. Para o serviço, nunca está bom! Você é um relaxado. Você não tem ambição. Não vai chegar a lugar nenhum. 

    Você é um estorvo, um encostado, um preguiçoso. Um fracassado.
    E esteja aqui amanhã, às sete. Em ponto.

  • Um pote de anfetamina depois do arco-íris

    Um pote de anfetamina depois do arco-íris

    1939 foi um ano canônico para Hollywood. Produções inovadoras, tanto em linguagem quanto em estética, estabeleceram novos padrões para lançamentos futuros na indústria. Filmes que viriam a ser grandes clássicos, como … E o Vento Levou, As Mulheres e Morro dos Ventos Uivantes, dividiram o cartaz o ano inteiro. Nesta toada, um poderoso lampejo de cor cruzou o showbiz: O Mágico de Oz revolucionou o ramo dos musicais e do cinema em cores.

    A obra original, intitulada The Wonderful Wizard of Oz, foi publicada em 1900 por L. Frank Baum, e sua adaptação para as telonas chegou com poucas mudanças. Não precisava mesmo: o livro já era um sucesso quando Victor Fleming dirigiu Judy Garland (1922–1969) no papel de Dorothy, a menina que buscava o grande mágico de Oz para voltar para casa com seu cachorrinho Totó e, pelo caminho de tijolos amarelos, fazia alguns amigos peculiares.

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    Cenas sensíveis e coloridas contavam uma fábula de sonho e fantasia, mas a situação nos estúdios da MGM era muito diferente, segundo relatos da produção e do elenco. Atriz da era de ouro do cinema, Garland sintetizou a clássica persona de grandes artistas daqueles (e, às vezes, ainda destes) tempos: grande talento, muitos traumas e triste fim.

    É impossível não relacionar sua vida conturbada às experiências que enfrentou desde jovem na indústria. Se O Mágico de Oz foi responsável por catapultar a artista à fama mundial, foi também um divisor de águas para sua inocência e determinante para o declínio de sua saúde mental.

    Eu conheci a história de vida da atriz muito antes de ver o filme. Logo, pareceu-me inadequado falar sobre o lado sombrio da produção e, logo depois, citar as maravilhas exibidas nas salas de cinema. O filme é um só. As cores e a penumbra se colocavam nitidamente para mim o tempo inteiro, até mesmo em momentos de incômodo que só fui entender depois, em pesquisas sobre os bastidores do filme. Vamos seguir assim, portanto. Falando de um filme só.

    Isto não é uma crítica. É um desensaio.

    Acho que não estamos mais no Kansas

    O Mágico de Oz não faz alusão à Segunda Guerra, iniciada naquele ano. Mas o mundo real de Dorothy no Kansas poderia bem ser uma referência à Grande Depressão que assolou os EUA na década de 30. Uma fazenda no meio do nada, terras aparentemente improdutivas, vida humilde e sem cor, sem esperança. Neste lugar, há uma menina que teme a perda do seu cãozinho na intensidade exata de uma criança: como uma tragédia anunciada.

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    Desolada, é nesses primeiros minutos que Dorothy entoa as notas de Over the Rainbow, e o assombro é instantâneo. Que timbre, que técnica! Uma menina de apenas 12 anos! Na verdade… 16. Ela era uma adolescente que, a despeito da altura, se passava muito bem por criança graças aos métodos dolorosos impostos pela produção, como faixa para os seios e cinta apertada. Era uma adolescente engarrafada num corpo de menina.

    Nos primeiros 20 minutos do filme, não temos cor. O diretor escolhe o sépia, que diz do antigo, do encardido, do envelhecido. E vem o tornado. E a tempestade acaba. E começa o êxodo de Dorothy, que finalmente abre a porta para um mundo novo em technicolor. O sistema não foi inaugurado no filme, mas era caro e ainda pouco usado. Foi o recurso narrativo, simbolizando uma transição de consciência e percepção, que popularizou a nova tecnologia de vez.

    Em contraste, é divertido perceber os meios disponíveis para a cenografia, por exemplo. É possível ver o tecido ao fundo nas cenas, pintado com o horizonte de Oz e suas montanhas verdes, e o plástico das folhagens que aparecem em primeiro plano é tão reluzente que não permite mergulhar totalmente na fábula por um segundo sequer — o que é maravilhoso ao assistir a um filme da década de 30, na minha opinião. A engenhosidade da equipe técnica é admirável.

    Acidentes e adoecimento pela estrada de tijolos amarelos

    A escassez de possibilidades também se refletia no figurino do elenco, o que adoeceu outros atores principais além de Garland. Buddy Ebsen, o primeiro ator escalado para interpretar o homem de lata, abandonou o papel após ter sérias reações nos pulmões devido à tinta aplicada em seu rosto, que continha alumínio. A produção reformulou o material, transformando a tinta numa pasta com menor teor de alumínio. Jack Haley, que assumiu o papel oficial do homem de lata, teve apenas desconfortos.

    Já a atriz Margaret Hamilton, intérprete da Bruxa Má do Oeste, teve uma reação à tinta verde aplicada em seu corpo, que continha cobre. Além disso, numa cena de desaparecimento com fumaça e fogo, uma explosão também causou queimaduras de segundo grau na artista, que precisou se afastar das gravações por semanas.

    Quase ninguém escapou destes problemas: o excelente Bert Lahr, que encarna o leão covarde na atuação mais deliciosa do filme, sofreu bastante. O figurino de Lahr era feito parcialmente de pele de leão verdadeira, e o ator usava próteses no rosto, além da maquiagem pesada. Por conta da caracterização demorada, só podia beber líquidos o dia inteiro no set de filmagem. Bert andava pingando suor pelas locações, pois passava um calor absurdo sob as roupas, que chegavam a pesar 40 kg. O curioso é saber que, décadas depois, o ator Jim Carrey passou por situação semelhante no set de O Grinch (2000).


    A bruxa está morta

    Vale beirar a tortura real para entregar um grande sucesso de fantasia aos cinemas? A direção e a produção do filme acreditavam que sim. Os abusos físicos e psicológicos foram incontáveis, principalmente em cima da jovem Judy Garland. Assistir à primeira cena em Oz foi especialmente incômodo para mim por saber que há relatos de assédio sexual naquele momento.

    Os Munchkins eram interpretados por atores portadores de nanismo. No livro Judy and I: My Life With Judy Garland, seu ex-marido, Sidney Luft, afirmou que, durante as gravações, Judy não só ouvia frases perturbadoras como era assediada sexualmente nas cenas em que uma multidão se reunia abaixo dela, na altura da barra de seu vestido.

    Outro fato bastante conhecido é a agressão sofrida pela atriz no set. Judy não conseguia conter uma crise de riso em seu primeiro encontro com o leão covarde, atrasando o andamento das cenas. Impaciente, o diretor Victor Fleming deu um tapa em seu rosto em frente a toda a equipe.

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    Para piorar o cotidiano de abusos, as jornadas de trabalho eram exaustivas e duravam até 16 h por dia. Para manter a energia, Judy e outros atores precisavam tomar anfetaminas. E depois, para conseguirem desligar, se tornavam dependentes de barbitúricos. Ali começou um vício que se perpetuou até o fim da vida da atriz.

    O Mágico de Oz foi apenas o início na carreira de Garland. Ela fez muito sucesso como atriz e cantora, estrelando filmes clássicos como a segunda versão de Nasce Uma Estrela (1954) e Julgamento em Nuremberg (1961). Sua vida foi complexa, e outras questões surgiriam, o que vale comentar em outro desensaio. Ela morreu precocemente por overdose acidental de barbitúricos, aos 47 anos.

    O fim da fábula todos conhecem: não é preciso mágica para revelar o que já existe em você. Ter cérebro não é ter astúcia; ter coração não é ter empatia, e a coragem não é ausência de medo. Para voltar para casa, não basta bater os sapatinhos de rubi: é preciso acreditar na mudança. E acreditar de verdade já é um trabalho e tanto.

    Na tela do cinema, nos bastidores da indústria ou nas casas de meninas e mulheres ao redor do mundo, tornar a vida em technicolor demanda a ousadia de acreditar numa mudança real. Acreditar e trabalhar para isso até que, num belo dia, nos percebamos dignos e capazes de desfrutar do que já temos e ser o que já somos.

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    Nota tardia:
    Uma mudança importante no final do filme quebra a promessa construída no mundo encorajador de Oz. No livro, Dorothy retorna ao Kansas com os sapatinhos nos pés, deixando claro que a aventura não foi só fantasia e deixando espaço para sonhar.

    No filme, Fleming entendeu que a audiência poderia se confundir. De volta da cidade futurista das Esmeraldas ao deserto do Kansas, não só os sapatinhos foram retirados, como o tom de sépia retorna. Antes de pertencimento, o clima aterrissa na resignação, após uma fábula que fala sobre metanoia. Escolha morna.